Para que serve o storytelling?

Vou confessar uma coisa, depois de uns trinta e tantos anos de profissão, dez entre dez colegas, inclusive eu, quando conversamos a respeito de nosso trabalho, parecemos lembrar apenas de quatro perguntinhas básicas que os participantes de eventos sempre nos fazem: (1) Contar histórias exige talento? (2) O seu trabalho é pegar uma pessoa sem talento e fazer dela um contador de histórias, dar a ela um dom que Deus deveria ter-lhe dado? (3) Eu não sei contar uma história nem que chova canivetes, você pode me ajudar? (4) Se tem técnica para isso, por que há tanta história mal contada por aí? (Referindo-se, no meu caso, normalmente a livros mal escritos).

E a resposta é:

  1. Não.
  2. Não.
  3. Sim.
  4. Pois é…

“Pois é…” é o problema. Teoricamente, a resposta não é complicada. Em vez de “contar”, “mostra”. Simples. Em inglês, dizemos: SHOW DON´T TELL.

Interessante é que em nosso cérebro – e só dentro dele – vivemos as histórias, ”episódio emocional por episódio emocional”. Tudo muito claro, muito lógico. “É óbvio que é assim…”, diz a voz lá dentro.

Entretanto, na hora de relatar “o todo”, fragmentado em episódio emocional por episódio emocional, para que o interlocutor aja ou reaja, fantasiamos que o nosso blá-blá-blá, do jeito que sair, boca a fora, bastará para que o pobre coitado entenda perfeitamente o que emocionalmente se passou em nossa cabeça.

Se o que desejamos é ganhar a atenção com o propósito de levar o outro a agir, despejar um resumo, resuminho ou resumão que a nada leve, não leva a nada. Os fragmentos de informação que normalmente comunicamos são tímidos demais, com lógica de menos, e mal embrulhados em ‘episódios de emoção’ para causar algum efeito.

Chato isso, não? Assim, numa empresa, organização ou projeto não comunicar direito é receita para desastre. Portanto, quer na sala de reuniões da firma ou na mesa do bar com amigos, poucas coisas funcionam tão bem quanto uma “história bem contada”. Uma história estrategicamente colocada levará a audiência para além dos meros fatos a verdadeiramente abraçar uma visão mais ampla da realidade.

Por exemplo, na semana passada, um autor com que trabalho, insistia em “engajar” o futuro leitor com a frase: “Os soldados estavam mentindo para ele e o sargento desconfiava. Sentia-se incomodado, mas meio perdido, sem verdadeiramente saber o que fazer”.

  • Tá bom, James?
  • Não.
  • Já sei!

O autor pensou, pensou e pensou, reescreveu e me passou o papel: “O sargento desconfiava que os soldados mentiam para ele. Sentia-se incomodado, meio perdido, sem saber o que fazer.”

  • Desculpa – disse ele, como tantos já com os olhinhos brilhando a espera do elogio –, pequei na lógica e usei palavras fracas. Advérbio enfraquece o texto, não é? Que tal agora?

“Agora”, pensei, “continua a mesma porcaria”. Não é tirando palavras ou ajeitando o português que vai virar uma “história bem contada”. Se apenas a informação me engajasse eu levaria a lista telefônica nas minhas viagens (grátis), em vez de levar o Dan Brown (7,99 libras esterlinas mais uma fila imensa para pagar, num aeroporto abafado).

Como se faz isto, então?

Pois bem, se quisermos que a audiência aja ou reaja, o dito autor deveria ter “mostrado” a historinha.

Mais ou menos assim:

“Certo fim de tarde, um sargento já apertava o punho. Aprontava-se para esmurrar a cara de cada um daqueles dez soldados. Estavam atrasados mais de uma hora e o vento frio no portão do forte já lhe havia congelado os pés, os joelhos e, agora, subia cada vez mais depressa.

Decidiu então que era hora de empunhar o rifle, fechar o portão e se recolher.

  • Sargento. Não me deixe aqui fora.

Naquele momento, um soldado gordinho se aproximava, fumacinha saindo da boca.

  • Mil desculpas, sargento – disse ele. – Mas posso explicar. Tive um compromisso que atrasou um pouco, corri para pegar o ônibus e acabei perdendo. Então, peguei um táxi que pifou no meio da estrada. Felizmente, consegui achar uma fazenda, comprei um cavalo que galopou por um quilômetro e pouco e caiu morto. Enfim, tive que correr esses dez quilômetros. O importante é que estou aqui!

O sargento ia mandar que o rapaz parasse com a lorota. Pensava o quê? Que lidava com um idiota?

Mas, afinal, o soldado estava ali, o frio era de rachar, e mandou que entrasse.

Pouco depois, mais um soldado apareceu e outro e outro, até totalizar oito.

A história era a mesma: compromisso que atrasou, ônibus perdido, táxi que pifou no meio da estrada, uma fazenda, cavalo comprado que galopou por um quilômetro e caiu morto, corrida de dez quilômetros e o importante é que havia chegado.

Quanta baboseira. Mas já que havia deixado o primeiro entrar não ia ser injusto com os demais e mandou que entrassem.

Só faltava o último. Se chegar, quando chegaria?

Outra hora de mais vento e ainda mais frio se passou até que ouviu ao longe um grito.

  • Sou eu, sargento. Não feche o portão.

Era o último. Ofegava mais que o primeiro.

  • Mil desculpas, sargento – disse ele. – Mas posso explicar. Tive um compromisso que atrasou um pouco, corri para pegar o ônibus e acabei perdendo. Então, peguei um táxi que …
  • Já posso adivinhar – interrompeu o sargento –, o táxi quebrou no meio da estrada.
  • Não senhor. O táxi não teve problema nenhum, o problema é que na estrada tinha tanto cavalo morto que levou um tempão para a gente conseguir passar.

Engajou?

Nem precisa chover canivetes para engajar o leitor. Basta evidenciar o que está acontecendo, criar um toque de suspense aqui e ali e – BINGO! – temos uma historinha que evoca emoções através dos princípios e técnicas do storytelling. Entender como funcionam as histórias serve para tudo. Utiliza-se para comunicar, criar e manter a identidade e reputação de uma empresa, por exemplo, ou até a sua própria identidade e reputação junto a amigos na mesa do bar.

História é história, as técnicas são as mesmas.

Tudo muito fácil e divertido!

James McSill é fundador e diretor executivo da McSill Ltd, Assessoramento Literário, Londres; Yorkshire Studio de Mentoring, Coaching e Treinamentos à distância para autores, York, e da McSill Agency, São Paulo. É um dos consultores literários mais bem-sucedidos do mundo; seu trabalho abrange Europa, América Latina e América do Norte. É reconhecido por suas atividades pioneiras na indústria do livro. Linguista por formação, impulsionou metodologias como Task-based Learning, mudando o cenário do ensino de idiomas estrangeiros no mundo. Neste ano, acrescenta aos seus desafios o de diretor de agência literária (Brasil), representante para a América Latina e Península Ibérica do prestigiado BritWriters’ Awards (Inglaterra), bem como a ampliação de seu bem-sucedido sistema de treinamento remoto para jovens autores: Book in a Box. James é mentor certificado pelo Intitute of Enterprise and Entrepreneurs (IOEE). www.mcsill.com

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